O fértil espaço para a política que se tornou a internet, com algoritmos ou sem.

Na Itália, o movimento 5 estrelas é o pioneiro na nova forma de fazer política baseada em algoritmos, tendo começado seu crescimento ainda em 2004 quando o fluxo de dados na internet não chega aos pés do que é hoje. Em 2009 foi inaugurado o partido, seu crescimento se deu pela divulgação de notícias com títulos chamativos e sensacionalistas, sendo também um catalisador de insatisfação que há na população com a democracia representativa, dando a oportunidade de cada um conseguir se sentir como fazendo uma grande diferença no jogo político com a mobilização. Nota-se o caráter populista e nacionalista de tal movimento, e também, como no caso do Brexit, é algo que tenta buscar apoio de pessoas de esquerda e direita.

Temos demandas criadas por uma época de consumo imediato, informações na hora e satisfação momentânea e uma delas é a política. A divulgação de informações algoritmicamente direcionada satisfaz isso e seu objetivo é alcançar todos os tipos de eleitores.

Essa nova forma de política não sai do horizonte dos políticos profissionais. Se em momentos anteriores nem compensava selecionar criteriosamente cada eleitor para enviar as cartas, agora se tornou algo que precisa estar no orçamento de toda campanha. O que irá haver, então, nesse âmbito, é uma disputa entre os políticos que possuem mais dados no sentido de aperfeiçoar envios e tipos de eleitor para conseguir se acotovelar na fragmentada e desconexa “opinião pública”. Podemos notar como Trump conseguiu votos da esquerda ou ao menos deixá-la em casa ao mostrar gafes, verdadeiras e falsas, sobre os Clinton. Também podemos ver que para Donald, haviam 5,9 milhões de mensagens diferentes para serem enviadas e otimizar seu destino, contra 66 mil de Hillary. Algo parecido se passou aqui no Brasil, e a reação das esquerdas foi a alegação de “golpe”, como se o próprio PT não financiasse coisas parecidas mas que foram menos eficazes que a de Bolsonaro.

O funcionamento desses algoritmos e suas aplicações por políticos foram demonstradas perfeitamente no livro Engenheiros do Caos de Giuliano Da Empoli. Mas pretendo propor uma reflexão diferente.

Uma pergunta que coloco é: A capacidade dessa nova forma de política algorítmica existir não estaria calçada em uma prévia impotência e não entendimento do capitalismo? O sentimento de não fazer diferença nenhuma na política, o ressentimento que se tem pelas injustiças, imaginárias ou não, da sociedade, encontram a vazão para sua ira nesse engajamento populista. Há ainda a paixão por políticos, a tentativa de estancar um ressentimento pela falta de atenção do pai, mas mesmo isso é impulsionado por um prévio não entendimento do capitalismo, pois se está mais suscetível a acreditar em grandes líderes salvadores sem uma compreensão mais esclarecida do mundo atual. Tudo isso gera um ódio que faz as pessoas se aglomerarem para expor sua raiva.

Na sociedade de controle de Deleuze, onde temos conglomerados financeiros que são desresponsabilizados por seus feitos por conta da ampla disseminação de ações das empresas que fazem não se identificar um “presidente”, ou os próprios algoritmos financiados por essas empresas, não vemos o controle sendo exercido sobre nossa vida, nem identificamos quem e como o exerce. Quem é a Vale? Que força que faz com que se passe reformas no Estado de retirada de direitos, privatizações e liberalizações financeiras, como a alavancagem? Como o capitalismo conseguiu se apartar da necessidade, antes primordial, de vender mercadoria para passar apenas a lidar com o mais novo “produto”, a própria moeda -virtual- e seu preço, os juros?

Com esse anterior não entendimento, é fácil acabarmos culpando os imigrantes, os comunistas, as “elites”, os banqueiros, o funcionário público ou o favorito dos populistas e Jessé, a Rede Globo. E não entende-se de fato as engrenagens que o capital, sujeito autômato, constrói e usa a todos como graxa.

Essa discussão não se encerra, outras narrativas podem ser usadas e criadas. Mas algo que já podemos tentar traçar é como poderá ser as reações desse novo jogo político por parte dos que não são políticos que dependem de seguidores fanáticos e fomentam esses, pessoas que apenas estão em busca de uma politização e mudanças, da mesma maneira que as revoluções científicas mudam os paradigmas da ciência.

Há elementos dos próprios movimentos populistas atuais que devemos prestar atenção. Todos os políticos aparecem sendo anti establishment, diferente da corja de corruptos posta até agora, isso nutre a demanda de um eleitor que está revoltado com a democracia representativa e busca até participar da democracia, principalmente se for com soluções fáceis.

Não convém a nós entrarmos no mesmo jogo político de fake news e piruetas algorítmicas para atingirmos nosso objetivo eleitoreiro, aliás, só faríamos isso com o financiamento de algum partido, sendo sem caráter e estando iludido com a democracia representativa, essa que elegeu Bolsonaro. Mas convém sim, por meio da mesma rede em que há toda essa gritaria política, a internet, realizar uma grande politização e nos unirmos em prol do que há de comum entre nós e quebrarmos a individualização narcisista de nossa era neoliberal. Esse é um jeito de captar o espírito que os mesmos políticos populistas captaram: a necessidade do povo se sentir influente na política. Mas articular isso sem esperar que o outro se torne gado, ou que siga palavras de ordem e verdades últimas, e sim dando instrumentos inteligentes que dão espaço para buscarmos uma democracia participativa que realmente faça peso na política atual. Há de se usar a comunicação enorme que temos com o advento da internet como meio para atingirmos nosso fim, aliás, todos estamos nela ou trabalhando ou consumindo conteúdo, o que hoje é trabalhar para alguma empresa, como o Google.

A onda populista tende a passar por ir contra a globalização, o dinheiro percorrendo livre todo o mundo, a troca de mercadoria entre países, e a necessidade de paz que o mercado financeiro pede. Não à toa Trump foi expulso das redes sociais: estava gerando o caos que no limite afetaria o próprio mercado, além do jogo populista com a velha indústria e a China que é um atraso para o capitalismo dos EUA. Mas o novo meio cibernético de fazer política não mostra seu desaparecimento no horizonte, e precisamos entende-lo para atuar nessas condições. Mutatis mutandis, ainda haverá repetições do que houve com os populistas atualmente em outra esfera política no jogo dos algoritmos.

Estudante de filosofia da UFES

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store