O espetáculo da miséria dos pobres

Falarei sobre algumas coisas que o capitalismo faz conosco.

Primeiro preciso de uma das maiores contribuições filosóficas de Marx e Debord: o fetiche da mercadoria e a reificação. As nossas relações sociais de produção de mercadoria são mascaradas pelo mercado e isso gera um fascínio pela mercadoria, ela adquire as qualidades que na verdade estão nas relações de produção. A mercadoria começa a parecer algo mágico. Qual mágica o dinheiro, que também é uma mercadoria atualmente, faz para reproduzir a si mesmo? Esse é o fetiche feito na mercadoria que depende de uma alienação do trabalhador pelo o que ele produziu. Nesse modo de produção da sociedade ocorre também a reificação, que é uma forma de alienar-se de si mesmo. Ora, como a mercadoria que é a coisa viva e que realmente transita na sociedade, nós nos tornamos o objeto usado por ela. Nossa relação sujeito-objeto é invertida pela mercadoria. Aí adquirimos as características de objeto e perdemos todas as nossas características de uma subjetividade complexa.

O capitalismo é esse regime em que ficamos dispostos a olhar, passivos, o espetáculo da mercadoria.

Esses programas de TV que vendem a miséria dos pobres como mercadoria creio ser um bom exemplo para entender a narrativa. Não raro, pode-se ouvir de algum telespectador a seguinte frase para justificar que esses programas não fazem uma exploração: “Eles estão lá pois querem dinheiro! ”. É como se o pobre estivesse recebendo um enorme favor e não sendo uma mercadoria. Numa sociedade reificada, subentende-se que o outro também estará reificado. Aquela frase, na verdade parece dizer: “Eles também fetichizaram a mercadoria, são tão coisas como nós, perderam sua subjetividade! ”. Como a miséria é a própria mercadoria, é uma questão de dar graças que tenhamos pobres para ver esse espetáculo. Não se quer interromper o fascínio gerado pelo fetichismo, obedece-se a mercadoria. E ainda pensam que os apresentadores resolvem alguma coisa e, por isso, entendem eles como paladinos da moral. Ora, são eles também mercadorias espetaculares.

Disso podemos partir para uma outra narrativa. O dinheiro é algo que deixa tudo equivalente, desde o sapato até o sexo e sentimentos, portanto, por reflexo passamos a pensar, conviver com os outros de modo abstrato. Nessa educação à abstração, não há o Outro, o que te nega, o antagônico, o singular, temos apenas o diverso, mas não o obstáculo. Há apenas coisas diversas. Perdeu-se o embate de absorção do Outro: negro\branco, popular\erudito rico\pobre…; esses são obstáculos que, no limite, podem impedir o dinheiro de circular livremente.

Percebe-se então que do modo de produção capitalista depreende-se fenômenos que modificam nossa subjetividade e que nos colocam como meros objetos do capital.

O capital financeiro do jeito que está montado não suporta o mínimo de insegurança, de falta de paz, de política como ela realmente é, ou seja, uma luta de classes. Por isso hoje há a ditadura do centro e milhares de pessoas dizendo: “Não gosto de extremos, sou de centro”; “Qualquer medida radical é errada”. Todos estamos envolvidos na ideologia do capital por meio da prática e ainda esquecemos que do jeito que ele existe não há nem 500 anos, naturalizamo-lo. O desaparecimento do Outro e o fetichismo da mercadoria nos encaixam perfeitamente na calmaria que o capital quer. Que a mercadoria possa circular sem obstáculos, e que nós sejamos as coisas que apenas ficam passivas diante de seu espetáculo. Esse pode ser o motivo do medo de uma conversa sobre política nas as mesas de refeição de várias casas.

Destarte, não nos espantemos com uma insensibilidade de um Bolsonaro, Janaina Paschoal, Kovas e companhia com o trato do COVID, já se são todos coisas sem empatia. Nem achemos estranho nas lives de políticos de esquerda, que se dizem representantes dos trabalhadores, uma completa indiferença com os espectadores, reduzidos a coisas. Esses são os que deveriam fazer o papel de Outro para os políticos, todavia, o que vemos hoje é que ao invés de fazer perguntas sinceras, preferem ficar, como a direita, gritando palavras de ordem no chat como um gado.

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Filme “A sociedade do Espetáculo” (1973)

Estudante de filosofia da UFES

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