O capitalismo nos apresenta situações sobre o racismo que tem que ser analisadas com atenção:

O capitalismo pede certa paz, segurança, o dinheiro transitando livre, a não-guerra. A Carta Sobre a Tolerância (1689) de John Locke alerta os países para fazerem comércio entre si independente de religião e sem fazer guerras que impeçam o livre curso do capital. Esse movimento para o capitalismo se expandir livremente buscando uma inclusão cada vez maior de pessoas continua, por exemplo, com a inclusão de grupos minoritários no mercado. Como fez a Magazine Luiza com políticas de colocar na gerência das lojas pessoas negras.

Então se pensa: Maravilha! O capitalismo, mesmo que de sua maneira liberal, reduz o racismo incluindo pessoas pro mercado. Verdade. Só uma direita muito retrógrada vai contra um projeto assim. Se dizem a favor do capitalismo e alguns até se dizem capitalistas, mas por motivos escusos não são a favor de políticas de expansão do mercado como essa.

O capital faz isso pois o objetivo dele é acumular a si próprio. Para tal ele tem que procurar mercados novos. Porém, por um outro lado ele faz perpetuar o racismo pelo mesmo motivo de se acumular. Como?

O nosso capitalismo financeiro, hodiernamente hegemônico em relação ao capitalismo produtivo, possibilita a irresponsabilidade sobre a empresa por parte de seus acionistas, ou seja, uma empresa sobrevive melhor dispersando ações dela própria, montando seguradoras, investindo em fundos, comprando títulos de dívidas e negociando derivativos do que produzindo camisas e vendendo; como o lucro do capital se dá no financeiro, tanto faz a qualidade da produção, o que importa é o lucro na bolsa e impressão de sucesso financeiro. Os donos das empresas, acionistas, compram pacotes de ações que contem milhares de empresas, desde marcas de cosméticos até mineradoras. A Vale, por exemplo, está diluída entre milhares de acionistas. Quais deles será responsável pelo desastre de Brumadinho? A responsabilidade acaba caindo em um técnico que claramente tinha menos poder sobre a gerência da empresa do que os acionistas.

O capitalismo montado dessa maneira permite o racismo perpetuar como ocorreu recentemente com o assassinato de João Alberto no Carrefour. Quem será responsabilizado pelo crime? Talvez o gerente daquela unidade, que é tão trabalhador e pobre quanto o que foi assassinado. E não podemos ter a ilusão que o mercado irá controlar esse tipo racismo. As ações do Carrefour não irão cair até os acionistas se preocuparem em mudar a estrutura que possibilitou o assassinato. Uma prova é que após o assassinato de João Alberto as ações do Carrefour subiram de preço. Caso haja um grande problema jurídico com a empresa, é muito fácil eles trocarem os nomes das empresas, porém continuarem os mesmos acionistas. Como a marca Walmart que posteriormente virou o BIG. [1]

Então, o capitalismo faz esse movimento: por um lado inclui minorias para o consumo para aumentar seu mercado e lucro, então diminui o racismo. Mas o capital se reproduz muito mais mantendo o capitalismo financeiro hegemônico e a irresponsabilidade dos acionistas sobre as empresas, e com isso ele dá a base para o racismo continuar. O capital não tem rosto.

Se nós de esquerda damos combate ao racismo ligado à opressão da cultura da maioria sobre a minoria e queremos integrar o negro à sociedade para reduzir o preconceito, temos que ter em mente que essa selvageria continua porquê o capitalismo prefere o lucro ao invés de enfrentar esse problema.

E uma verdadeira esquerda quer mais do que incluir o negro ao mercado. Queremos que independentemente de sua etnia, que não seja preciso trabalhar em um serviço que limite a capacidade e desenvolvimento.

[1]: https://www.infomoney.com.br/negocios/marca-walmart-deixa-brasil-e-muda-para-grupo-big-com-investimento-de-r-12-bilhao/

Estudante de filosofia da UFES

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